A tentativa de identificar a mulher
surpreendida em adultério como sendo a “Suzana” mencionada em Lucas 8:3
não passa de mera conjectura, pois nem o relato bíblico e nem os
comentários de Ellen White mencionam o nome dessa mulher. Ellen
White sugere que a mulher era casada (O Desejado de Todas as Nações,
pág. 461) e que fora induzida “ao pecado” pelos seus próprios acusadores
com a intenção de “armar uma cilada para Jesus” (Review and Herald, 25
de novembro de 1902). Mas o encontro dela com o Salvador marcou “o
início de uma nova vida, vida de pureza e paz, devotada ao serviço de
Deus”, transformando-a em um dos “mais firmes seguidores” de Jesus (O
Desejado de Todas as Nações, pág. 462) e “um dos mais resolutos amigos
de Jesus” que esteve com Ele mesmo “ao pé da cruz” por ocasião da
crucifixão (Signs of the Times, 23 de outubro de 1879).
Já Maria Madalena é identificada nos
Evangelhos como a pessoa de quem Jesus expulsou “sete demônios” (Mar.
16:9; Luc. 8:2), e que presenciou a crucifixão e o sepultamento de
Cristo (Mat. 27:56, 61; João 19:25). Foi a ela que Cristo
apareceu primeiro depois de ressuscitado, tornando-se a primeira
porta-voz da ressurreição (Mat. 28:1-10; Mar. 16:1-11; Luc. 24:1-11;
João 20:1-18). Comentaristas bíblicos questionam, porém, se a unção de
Jesus mencionada em Lucas 7:36-50 seria a mesma registrada em João
12:1-8 (ver também Mat. 26:6-13; Mar. 14:3-9), realizada por Maria
Madalena.
Em harmonia com uma antiga tradição
cristã, Ellen White confirma que foi realmente Maria Madalena quem ungiu
com perfume a Jesus no banquete na casa de Simão (O Desejado de Todas
as Nações, pág. 566). Somos informados pela mesma autora que Maria
Madalena era a irmã de Marta e Lázaro (ibid., pág. 568), e que ela fora
induzida “ao pecado” pelo próprio Simão (ibid., pág. 566). Além disso,
ela “foi a última a deixar o sepulcro do Salvador, e a primeira a ser
por Ele saudada na manhã da ressurreição” (O Maior Discurso de Cristo,
pág. 129).
A tentativa de identificar Maria Madalena
como sendo a mulher surpreendida em adultério (João 8:1-11) é passível
de contestação. Em primeiro lugar, como já mencionado, nem a Bíblia e
nem Ellen White jamais chamam essa mulher de Maria Madalena. Nem mesmo o
Seventh-day Adventist Bible Commentary e nem os demais comentários
sobre o Evangelho de João consultados na pesquisa para este artigo
fazem tal associação. A existência de uma tradição cristã antiga que
corroborasse essa associação parece descartada por Carmen Bernabé Ubieta
em sua obra María Magdalena: Tradiciones en el Cristianismo Primitivo
(Estella, Espanha: Verbo Divino, 1994), onde nem ao menos aparece
qualquer alusão ao texto de João 8:1-11.
Por outro lado, John Fisher, um dos
oponentes de Lutero, publicou em 1508 uma exposição homilética na qual
ele identificava Maria Madalena como sendo a mulher surpreendida em
adultério (Jaroslav Pelican, The Christian Tradition, vol. 4, pág.
131). Mais recentemente, Morris Venden popularizou essa interpretação
nos meios adventistas
através do seu livro Como Jesus Tratava as Pessoas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1989), capítulo 2. Mas a abordagem de Venden é igualmente homilética, sem quaisquer tentativas de comprovação para suas idéias.
através do seu livro Como Jesus Tratava as Pessoas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1989), capítulo 2. Mas a abordagem de Venden é igualmente homilética, sem quaisquer tentativas de comprovação para suas idéias.
Alguém poderia buscar endosso para a
referida associação nas declarações de Ellen White, acima mencionadas,
onde ela fala da mulher surpreendida em adultério como uma das mais
dedicadas seguidoras de Cristo e como uma das mulheres que permaneceu
ao pé da cruz por ocasião da crucifixão. Mas não podemos nos esquecer
que Maria Madalena não foi a única mulher com essas características (ver
Luc. 23:44-56).
Seja como for, qualquer tentativa de
identificação entre a mulher surpreendida em adultério com Maria
Madalena não passa de mera inferência não sugerida explicitamente pelo
texto bíblico ou pelos escritos de Ellen White. Portanto, essa teoria
deveria ser considerada uma opinião pessoal de quem a advoga, sem o
apoio dos comentaristas bíblicos.
Dr. Alberto Timm – Revista do Ancião (abril – junho de 2004)
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