Era um ser
admirável de poder e glória o que se pusera em oposição a Deus. De
Lúcifer, diz o Senhor: “Tu és o aferidor da medida, cheio de sabedoria e
perfeito em formosura.” (Ezequiel 28:12). Lúcifer fora o querubim
cobridor. Estivera à luz da presença divina. Fora o mais elevado de
todos os seres criados, e o primeiro em revelar ao Universo os desígnios
divinos.
Depois de pecar, seu poder de enganar
tornou-se consumado, e mais difícil o descobrir-lhe o caráter, em
virtude da exaltada posição que mantivera junto do Pai.
→ Deus poderia haver
destruído Satanás e seus adeptos tão facilmente, como se pode atirar um
seixo à terra; assim não fez, porém. A rebelião não seria vencida pela
força. Poder compulsor só se encontra sob o governo de Satanás. Os
princípios do Senhor não são dessa ordem. Sua autoridade baseia-se na
bondade, na misericórdia e no amor; e a apresentação desses princípios é
o meio a ser empregado. O governo de Deus é moral, e verdade e amor
devem ser o poder predominante.
Era desígnio divino colocar as coisas
numa base de segurança eterna, sendo decidido nos conselhos celestiais
que se concedesse tempo a Satanás para desenvolver os seus princípios, o
fundamento de seu sistema de governo. Pretendera serem os mesmos
superiores aos princípios divinos. Deu-se tempo para que os princípios
de Satanás operassem, a fim de serem vistos pelo Universo celestial.
Satanás induziu o homem ao pecado, e o plano de redenção entrou em
vigor. Por quatro mil anos, esteve Cristo trabalhando pelo reerguimento
do homem, e Satanás por sua ruína e degradação. E o Universo celestial
contemplava tudo.
Ao vir Jesus ao mundo, o poder de Satanás
voltou-se contra Ele. Desde o tempo em que aqui apareceu, como a
Criancinha de Belém, manobrou o usurpador para promover Sua destruição.
Por todos os meios possíveis, procurou impedir Jesus de desenvolver
infância perfeita, imaculada varonilidade, um ministério santo e
sacrifício irrepreensível. Foi derrotado, porém. Não pôde levar Jesus a
pecar. Não O conseguiu desanimar, ou desviá-Lo da obra para cuja
realização viera ao mundo. Do deserto ao Calvário, foi açoitado pela
tempestade da ira de Satanás, mas quanto mais impiedosa era ela, tanto
mais firme Se apegava o Filho de Deus à mão de Seu Pai, avançando na
ensangüentada vereda. Todos os esforços de Satanás para oprimi-Lo e
vencê-Lo, só faziam ressaltar, mais nitidamente, a pureza de Seu
caráter.
→ Todo o Céu, bem como
os mundos não caídos, foram testemunhas do conflito. Com que profundo
interesse seguiram as cenas finais da luta! Viram o Salvador penetrar no
jardim do Getsêmani, a alma vergando sob o horror de uma grande treva.
Ouviram-Lhe o doloroso grito: “Meu Pai, se é possível, passe de Mim este
cálice!” (Mateus 26:39). À medida que dEle era retirada a presença do
Pai, viram-nO aflito por uma dor mais atroz que a da grande e derradeira
luta com a morte. Suor de sangue irrompeu-Lhe dos poros, gotejando no
chão. Por três vezes foi-Lhe arrancada dos lábios a súplica de
livramento. Não mais pôde o Céu suportar a cena, e um mensageiro de
conforto foi enviado ao Filho de Deus.
O Céu viu a Vítima entregue às mãos da
turba homicida, e, com zombaria e violência, impelida à pressa de um a
outro tribunal. Ouviu os escárnios dos perseguidores por causa de Seu
humilde nascimento. Ouviu a negação por entre juras e imprecações da
parte de um de Seus mais amados discípulos. Viu a frenética obra de
Satanás, e seu poder sobre o coração dos homens. Oh! Terrível cena! O
Salvador aprisionado à meia-noite no Getsêmani, arrastado daqui para
ali, de um palácio a um tribunal, citado duas vezes perante sacerdotes,
duas perante o Sinédrio, duas perante Pilatos, e uma diante de Herodes,
escarnecido, açoitado, condenado e conduzido fora para ser crucificado,
carregando o pesado fardo da cruz, por entre os lamentos das filhas de
Jerusalém e as zombarias da gentalha!
Com dor e espanto contemplou o Céu a
Cristo pendente da cruz, o sangue a correr-Lhe das fontes feridas, tendo
na testa o sanguinolento suor. O sangue caía-Lhe, gota a gota, das mãos
e dos pés, sobre a rocha perfurada para encaixar a cruz. As feridas
abertas pelos cravos aumentavam ao peso que o corpo fazia sobre as mãos.
Sua difícil respiração tornava-se mais rápida e profunda, à medida que
Sua alma arquejava sob o fardo dos pecados do mundo. Todo o Céu se
encheu de assombro quando, em meio de Seus terríveis sofrimentos, Cristo
ergueu a oração: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
(Lucas 23:34).
E, no entanto, ali estavam homens formados à imagem de Deus, unidos para esmagar a vida de Seu unigênito Filho.
Houvesse-se podido achar um só pecado em
Cristo, tivesse Ele num particular que fosse cedido a Satanás para
escapar à horrível tortura, o inimigo de Deus e do homem teria
triunfado. Cristo inclinou a cabeça e expirou, mas manteve firme a Sua
fé em Deus, e a Sua submissão a Ele. “E ouvi uma grande voz no Céu, que
dizia: Agora chegada está a salvação, e a força, e o reino do nosso
Deus, e o poder do Seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é
derribado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite.”
(Apocalipse 12:10).
Satanás viu que estava desmascarado. Sua
administração foi exposta perante os anjos não caídos e o Universo
celestial. Revelara-se um homicida. Derramando o sangue do Filho de
Deus, desarraigou-se Satanás das simpatias dos seres celestiais. Daí em
diante sua obra seria restrita. Qualquer que fosse a atitude que
tomasse, não mais podia esperar os anjos ao virem das cortes celestiais,
nem perante eles acusar os irmãos de Cristo de terem vestes de trevas e
contaminação de pecado. Estavam rompidos os derradeiros laços de
simpatia entre Satanás e o mundo celestial.
Todavia, Satanás não foi então destruído.
Os anjos não perceberam, nem mesmo aí, tudo quanto se achava envolvido
no grande conflito. Os princípios em jogo deviam ser mais plenamente
revelados. E por amor do homem, devia continuar a existência de Satanás.
O homem, bem como os anjos, devia ver o contraste entre o Príncipe da
Luz e o das trevas. Cumpria-lhes escolher a quem servir.
No início do grande conflito, declarara Satanás que a lei divina não podia ser obedecida,
que a justiça era incompatível com a misericórdia, e que, fosse a lei
violada, impossível seria ao pecador ser perdoado. Cada pecado devia
receber seu castigo, argumentava Satanás; e se Deus abrandasse o castigo
do pecado, não seria um Deus de verdade e justiça. Quando o homem
violou a lei divina, e Lhe desprezou a vontade, Satanás exultou. Estava
provado, declarou, que a lei não podia ser obedecida; o homem não podia
ser perdoado. Por haver sido banido do Céu, depois da rebelião,
pretendia que a raça humana devesse ser para sempre excluída do favor
divino. O Senhor não podia ser justo, argumentava, e ainda mostrar
misericórdia ao pecador.
→ Mas mesmo como
pecador, achava-se o homem, para com Deus, em posição diversa da de
Satanás. Lúcifer pecara, no Céu, em face da glória divina. A ele, como a
nenhum outro ser criado, se revelou o amor de Deus. Compreendendo o
caráter do Senhor, conhecendo-Lhe a bondade, preferiu Satanás seguir sua
própria vontade independente e egoísta. Essa escolha foi decisiva. Nada
mais havia que Deus pudesse fazer para o salvar. O homem, porém, foi
enganado; obscureceu-se-lhe o espírito pelo sofisma de Satanás. A altura
e a profundidade do amor divino, não as conhecia o homem. Para ele,
havia esperança no conhecimento do amor de Deus. Contemplando-Lhe o caráter, podia ser novamente atraído para Ele.
Por meio de Jesus, foi a misericórdia divina manifesta aos homens; a misericórdia, no entanto, não pôs de parte a justiça.
A lei revela os atributos do caráter de Deus, e nem um jota ou til da
mesma se podia mudar, para ir ao encontro do homem em seu estado caído.
Deus não mudou Sua lei, mas sacrificou-Se a Si mesmo em Cristo, para
redenção do homem. “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o
mundo.” (II Coríntios 5:19).
→ A lei requer justiça –
vida justa, caráter perfeito; e isso não tem o homem para dar. Não pode
satisfazer as reivindicações da santa lei divina. Mas Cristo, vindo à
Terra como homem, viveu vida santa, e desenvolveu caráter perfeito.
Estes oferece Ele como dom gratuito a todos quantos o queiram receber.
Sua vida substitui a dos homens. Assim obtêm remissão de pecados
passados, mediante a paciência de Deus. Mais que isso, Cristo lhes
comunica os atributos divinos.
Forma o caráter humano segundo a
semelhança do caráter de Deus, uma esplêndida estrutura de força e
beleza espirituais. Assim, a própria justiça da lei se cumpre no crente
em Cristo. Deus pode ser “justo e justificador daquele que tem fé em
Jesus”. (Romanos 3:26).
O amor de Deus tem-se expressado tanto em
Sua justiça como em Sua misericórdia. A justiça é o fundamento de Seu
trono, e o fruto de Seu amor. Era o desígnio de Satanás divorciar a
misericórdia da verdade e da justiça. Buscou provar que a justiça da lei
divina é um inimigo da paz. Mas Cristo mostrou que, no plano divino,
elas estão indissoluvelmente unidas; uma não pode existir sem a outra.
“A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se
beijaram.” (Salmo 85:10). Por Sua vida e morte, provou Cristo que a
justiça divina não destrói a misericórdia, mas que o pecado pode ser
perdoado, e que a lei é justa, sendo possível obedecer-lhe
perfeitamente. As acusações de Satanás foram refutadas. Deus dera ao
homem inequívoca prova de amor.
→ Outro engano devia ser então apresentado. Satanás declarou que a misericórdia destruía a justiça, que a morte de Cristo anulava a lei do Pai. Fosse possível ser a lei mudada ou anulada, então não era necessário Cristo ter morrido. Anular a lei, porém, seria imortalizar a transgressão e colocar o mundo sob o domínio de Satanás.
Foi porque a lei é imutável, porque o homem só se pode salvar mediante a
obediência a seus preceitos, que Jesus foi erguido na cruz. Todavia, os
próprios meios porque Cristo estabeleceu a lei, foram apresentados por
Satanás como destruindo-a. A esse respeito sobrevirá o derradeiro
conflito da grande luta entre Cristo e Satanás.
O ser defeituosa a lei pronunciada pela própria voz divina, o haverem sido certas especificações postas à margem, eis a pretensão apresentada agora por Satanás. É o último grande engano que ele há de trazer sobre o mundo.
Não necessita atacar toda a lei; se pode levar os homens a desrespeitar
um só preceito, está conseguido seu objetivo. Pois “qualquer que
guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de
todos”. (Tiago 2:10). Consentindo em transgredir um preceito, são os
homens colocados sob o poder de Satanás. Substituindo a lei divina pela
humana, procurará Satanás dominar o mundo. Essa obra é predita em
profecia. Acerca do grande poder apóstata que é representante de
Satanás, acha-se declarado: “Proferirá palavras contra o Altíssimo e
destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei;
e eles serão entregues na sua mão.” (Daniel 7:25). Os homens hão de
certamente estabelecer suas leis para anular as de Deus. Procurarão
obrigar a consciência de outros, e, em seu zelo para impor essas leis,
oprimirão os semelhantes.
A guerra contra a lei divina, começada no Céu, continuará até ao fim do tempo. Todo homem será provado. Obediência ou desobediência, eis a questão a ser assentada por todo o mundo. Todos serão chamados a escolher entre a lei divina e as humanas.
Aí se traçará a linha divisória. Não existirão senão duas classes. Todo
caráter será plenamente desenvolvido; e todos mostrarão se escolheram o
lado da lealdade ou o da rebelião. Então virá o fim.
Deus reivindicará Sua lei e livrará Seu
povo. Satanás e todos quantos se lhe houverem unido em rebelião serão
extirpados. O pecado e os pecadores perecerão, raiz e ramos (Malaquias
4:1) – Satanás a raiz, e seus seguidores os ramos. Cumprir-se-á a
palavra dirigida ao príncipe do mal: “Pois que estimas o teu coração
como se fora o coração de Deus, … te farei perecer, ó querubim protetor,
entre pedras afogueadas. … Em grande espanto te tornaste, e nunca mais serás para sempre.”
(Ezequiel 28:1 a 21). Então “o ímpio não existirá; olharás para o seu
lugar, e não aparecerá” (Salmo 37:10); “e serão como se nunca tivessem
sido”. (Obadias 16).
→ Isso não é um ato de
poder arbitrário da parte de Deus. Os que Lhe rejeitam a misericórdia
ceifarão aquilo que semearam. Deus é a fonte da vida; e quando alguém
escolhe o serviço do pecado, separa-se de Deus, desligando-se assim da
vida. Ele está “separado da vida de Deus” (Efésios 4:18). Cristo diz:
“Todos os que Me aborrecem amam a morte.” (Provérbio 8:36). Deus lhe dá
existência por algum tempo, a fim de poderem desenvolver seu caráter e
revelar seus princípios. Feito isso, receberão os resultados de sua
própria escolha. Por uma vida
de rebelião, Satanás e todos quantos a ele se unem colocam-se em tanta
desarmonia com Deus, que Sua própria presença lhes é um fogo consumidor. A glória dAquele que é amor os destruirá.
Havendo-se completado o plano da
redenção, o caráter de Deus é revelado a todos os seres inteligentes. Os
preceitos de Sua lei são vistos como perfeitos e imutáveis. Então o
pecado terá patenteado sua natureza, Satanás o seu caráter. O extermínio
do pecado reivindicará o amor de Deus, e estabelecerá Sua honra perante
um Universo de seres que se deleitam em fazer Sua vontade, e em cujo
coração está a Sua lei. A destruição do pecado e de Satanás fora para
sempre assegurada, que a redenção do homem era certa e que o Universo
estava para sempre a salvo. O próprio Cristo compreendeu plenamente os
resultados do sacrifício feito no Calvário. A tudo isto olhava Ele
quando exclamou na cruz: “Está consumado.” (João 19:30).
Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, pág. 758.
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